Covenants na prática
Covenants na prática
Nível: básico · Tempo: ~12 min · Base: Biblioteca Cap 31 e Cap 14
Quando uma empresa pega um empréstimo grande ou emite dívida, o credor coloca cláusulas de proteção no contrato: os covenants. São promessas financeiras que a empresa se compromete a cumprir enquanto a dívida existir. Quebrar um covenant pode disparar o vencimento antecipado de toda a dívida. Este guia mostra os covenants mais comuns e como acompanhá-los.
Por que covenants existem
O credor emprestou dinheiro e quer um sinal antecipado se a empresa começar a piorar, antes de ela parar de pagar. Os covenants funcionam como alarmes: enquanto os indicadores estão dentro do combinado, tudo bem; se saem, o banco pode renegociar, exigir garantias ou cobrar tudo de uma vez.
Os covenants mais comuns
O mais frequente mede quanto a empresa deve em relação à sua geração de caixa (# ref: Cap 14):
Dívida Líquida / EBITDA ≤ limite (ex.: 3,0x)Dívida líquida é a dívida total menos o caixa. Se o contrato diz "máximo 3,0x", a empresa promete não dever mais que três anos de EBITDA. Outros dois clássicos:
Cobertura de Juros (ICR) = EBITDA / Despesa de Juros ≥ limite (ex.: 2,0x)
Liquidez Corrente = Ativo Circulante / Passivo Circulante ≥ limite (ex.: 1,2)A cobertura de juros pergunta "a geração de caixa cobre os juros com folga?". A liquidez corrente pergunta "os ativos de curto prazo cobrem as dívidas de curto prazo?".
Como acompanhar
Covenants costumam ser medidos trimestralmente, sobre os últimos 12 meses (R12), não sobre um mês isolado. O acompanhamento tem três estados:
- Folga: indicador longe do limite. Tranquilo.
- Atenção: indicador se aproximando (ex.: DL/EBITDA em 2,7x contra limite de 3,0x). Hora de agir antes de estourar.
- Breach (quebra): limite ultrapassado. Aciona o contrato.
Exemplo numérico
Valores ilustrativos: empresa com dívida líquida de R$ 900 mil, EBITDA R12 de R$ 300 mil e despesa de juros de R$ 120 mil.
DL/EBITDA = 900 / 300 = 3,0x → no limite de 3,0x (atenção máxima)
ICR = 300 / 120 = 2,5x → acima do mínimo de 2,0x (folga)Leitura: a alavancagem está colada no teto. Uma queda de EBITDA para R$ 280 mil já levaria o índice a 3,2x e estouraria o covenant, mesmo a empresa continuando lucrativa.
O que fazer perto do limite
- Reduzir dívida com o caixa disponível (amortização antecipada derruba a dívida líquida).
- Negociar um waiver: pedir ao credor uma dispensa temporária do covenant antes de quebrá-lo. Fazer isso proativamente, com um plano, é muito melhor que ser pego em breach.
- Proteger o EBITDA: cortar custos ou adiar despesas que derrubariam a geração de caixa no trimestre de medição.
Armadilhas comuns
- Medir sobre um mês só. Covenant é quase sempre R12. Um mês fraco não quebra nada; a média móvel de 12 meses é o que conta.
- Esquecer o efeito IFRS 16. Aluguéis podem entrar ou não no EBITDA e na dívida conforme a definição do contrato. Confirme qual base o covenant usa (# ref: Cap 38).
- Descobrir o breach no fechamento. O covenant deve ser projetado, não só medido. Se a projeção mostra estouro em dois trimestres, negocie agora.
Próximo passo
Para entender como a estrutura de dívida afeta esses índices, veja "Análise de alavancagem financeira" e o arquétipo Estrutura de Capital (# ref: Cap 14 e Cap 26).